O que é o Espiritismo

Celeste Carneiro

De vez em quando nos deparamos com pessoas expondo conceitos ditos espíritas, e o próprio termo espírita, de forma que confundem aqueles que não estão acostumados ao estudo das obras básicas do Espiritismo.

Espiritismo e espírita são termos criados por Allan Kardec para designar uma nova doutrina que tem estes pressupostos, em síntese:

1. Crença num Deus eterno, imutável, imaterial, único, onipotente, soberanamente justo e bom.
2. O mundo dos Espíritos é o mundo normal, primitivo, eterno, preexistente e sobrevivente a tudo.
3. A alma é um Espírito encarnado, sendo o corpo apenas o seu envoltório.
4. Unindo o corpo material ao ser imaterial, há um princípio intermediário, semimaterial.
5. Os Espíritos têm diferentes níveis evolutivos e todos se melhoram passando pelos diferentes graus da hierarquia espírita.
6. A evolução dos Espíritos se dá por meio da encarnação, sempre na espécie humana.
7. Os Espíritos encarnados habitam os diferentes globos do Universo.
8. Os não encarnados ou errantes não ocupam uma região determinada e circunscrita; estão por toda parte no espaço e ao nosso lado, vendo-nos e acotovelando-nos de contínuo. É toda uma população invisível, a mover-se em torno de nós.
9. As relações dos Espíritos com os homens são constantes. As comunicações deles com os homens são ocultas ou ostensivas. Eles se manifestam espontaneamente ou mediante evocação.
10. A moral dos Espíritos superiores se resume, como a do Cristo, nesta máxima evangélica: Fazer aos outros o que quereríamos que os outros nos fizessem, isto é, fazer o bem e não o mal. Neste princípio encontra o homem uma regra universal de proceder, mesmo para as suas menores ações (O Livro dos Espíritos – Allan Kardec – Introdução – item VI, pág. 23 – 36ª edição – FEB – Federação Espírita Brasileira).

Dizer que o umbandista é espírita porque acredita nas comunicações dos Espíritos seria o mesmo que dizer que o budista é espírita por acreditar na reencarnação.

A intenção de Kardec era codificar os ensinamentos milenares, sob orientação de elevados Espíritos que viveram nas mais diversas regiões e épocas, a fim de que todas as religiões se beneficiassem com a sua compilação. Mas, a reação não foi como ele esperava, gerando assim uma nova doutrina, e, como diz ele, para algo novo, um novo nome. Daí Espiritismo e não Espiritualismo.

Alguém ilustrou a idéia das diversas religiões como sendo equivalente a uma Universidade muito ampla, onde os estudantes escolhem a Faculdade que mais lhe é conveniente: cada religião seria uma Faculdade, e a Universidade seria a busca e a presença de Deus. Outros dizem que as diversas formas de se buscar Deus é semelhante às diversas estradas que levam a uma grande cidade. Já o Dalai Lama afirma: Para diferentes doenças, os médicos receitam diferentes remédios. Da mesma maneira, cada necessidade espiritual precisa de uma resposta específica. (Revista Época, abril/2006)

No Espiritismo as práticas de suas reuniões têm um cunho de simplicidade e despojamento de adereços, valorizando a comunhão do ser com o divino em si, em todas as dimensões, passando pela comunhão com a espiritualidade e pela caridade – o Deus no próximo.

Considero semelhante ao ensinamento da cultura chinesa: a Terra (o ser encarnado, a matéria e tudo o que lhe diz respeito); o céu (a espiritualidade); e o homem (o que está no meio, se relacionando com o próximo). É o centrar-se (eu comigo mesma), descentrar-se (eu indo ao encontro do outro) e supercentrar-se (eu sintonizando com o self ou Centelha Divina).

Das religiões que conheço é a única que educa a mediunidade, estuda-a e propicia o equilíbrio do indivíduo que passa por influência ostensiva dos Espíritos infelizes.

Citando Kardec:

Para a edificação de pessoas estranhas à ciência espírita, nós diremos que não há, para comunicar com os Espíritos, nem dias, nem horas, nem lugar mais propícios uns que os outros; que não é preciso para os evocar, nem fórmulas nem palavras sacramentais ou cabalísticas; que não há neces­sidade de nenhuma preparação, de nenhuma iniciação; que o emprego de todo sinal ou objeto material, seja para os atrair, seja para os repelir, não tem efeito, e que o pensa­mento basta; .enfim, que os médiuns recebem suas comuni­cações tão simplesmente e tão naturalmente como se fos­sem ditadas por uma pessoa viva, sem sair do estado nor­mal.
.........

As manifestações não estão, pois, destinadas a servir aos interesses materiais; sua utilidade está nas con­seqüências morais que delas decorrem. Todavia, não tives­sem elas por resultados senão fazer conhecer uma nova lei da Natureza, demonstrar materialmente a existência da alma e sua sobrevivência, isso já seria muito, porque seria um largo e novo caminho aberto à filosofia (O que é o Espiritismo Item 49 e 53 – Páginas 113 a 115 – Instituto de Difusão Espírita).

Com relação às manifestações de entidades conhecidas como Pretos Velhos e Caboclos, que ocorrem esporadicamente em alguns Centros Espíritas, considero que são nossos irmãos como todos os outros que se apresentam nas reuniões mediúnicas. Como diz Kardec, há vários níveis na escala evolutiva e vivemos muitas vidas para evoluir. Quase todos os Caboclos, Pretos Velhos, Índios e entidades de "nível social" menos evoluído na consideração do mundo terreno, com os quais mantive contato, são Espíritos de profunda sabedoria, que escolheram se apresentar dessa forma porque, tendo experiências como nobres e intelectuais, se perderam do caminho que leva a Deus; nas encarnações mais humildes, eles conquistaram o equilíbrio e firmaram os passos no caminho do Bem, voltando para nos instruir e alertar.

Lembro de Dr. Ildefonso, ex-presidente da Federação Espírita do Estado da Bahia. Sendo preto e velho, ele graceja com essa questão, dizendo: Quando eu desencarnar e quiser dar uma mensagem em algum Centro Espírita, certamente não me aceitarão. Será a primeira vez que um ex-presidente de Federação Espírita será impedido de se manifestar em reunião mediúnica, pelo fato de ser um "Preto Velho"! E ri.

O Espiritismo é uma doutrina aberta, progressista, acolhedora:

Caminhando de par com o progresso, o Espiritismo jamais será ultrapassado, porque, se novas descobertas lhe demonstrassem estar em erro acerca de um ponto qualquer, ele se modificaria nesse ponto. Se uma verdade nova se revelar, ele a aceitará (A Gênese – Item 55 – Pág. 44 – 25ª edição – FEB).

É o que diz também o Dalai Lama, com relação ao Budismo: Se a ciência provar que algum preceito budista é incoerente, ele deve ser alterado. (Revista Galileu, abril/2006)

Concluímos essas abreviadas considerações, com a visão de Kardec, sempre aberta e ampla, de quem observa do alto de uma montanha:

O objetivo da religião é conduzir a Deus o homem. Ora, este não chega a Deus senão quando se torna perfeito. Logo, toda religião que não torna melhor o homem, não alcança o seu objetivo (O Evangelho Segundo o Espiritismo – Cap. VIII, item 10 – 67ª edição – FEB).

Abril/2006
Publicado na Revista Presença Espírita (Mansão do Caminho) Julho/Agosto 2006



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