ORGULHO E HUMILDADE - I



ORGULHO E HUMILDADE - I

 

Celeste Carneiro

 

  

 

Iniciando o Sermão do Monte, Jesus lança no espaço o seu convite de transformação interior, deixando impregnada na psicosfera terrestre para todo o sempre, a mensagem que veio trazer para todos nós, em todas as épocas.

 

Em Lucas, é descrito que Jesus desceu a um lugar plano. Já em Mateus, Ele subiu ao monte... Um fala sobre a sensibilidade de quem ensina e é capaz de “descer” para se fazer entendido por aqueles que se encontram num plano mais iniciante; o outro, dirige-se aos iniciados nos ensinamentos que conduzem ao mais elevado de si mesmo, ao sagrado, ao encontro com o divino em seus corações. 

 

Lucas apresenta um Mestre que consola a personalidade encarnada; Mateus traz um Mestre para a ascensão da individualidade, o ser imortal.

 

Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus, canta Jesus sua melodia consoladora. 

 

Para alguns estudiosos a tradução seria “pobres em espírito”... 

 

Na apresentação de Lucas, todos os que são pobres, sofridos, carentes do essencial para viver bem, terão um dia ou em outra vida a oportunidade de serem compensados por essa experiência. Os ricos, os felizes, os satisfeitos na vida, já encontram sua realização aqui mesmo. É provável que virão em outra oportunidade, sem esses recursos, para também passarem pela experiência da pobreza. 

 

Esse consolo e esse ensinamento das Bem-aventuranças é para o momento presente.  Jesus educa-nos para vivermos no presente: porque deles é o reino dos céus. Sua mensagem não é para um futuro incerto, ela já está em ação.

 

O reino dos céus se refere a todo o nosso potencial em expansão. É como quando falamos sobre uma semente:  esta aqui é um abacateiro – o abacate surgirá no seu tempo certo. 

 

Esta bem-aventurança nos fala sobre o orgulho e a humildade.

 

O orgulho significa o querer ser superior aos demais, ser o melhor, com a pretensão de ser infalível, insuperável.

 

Joanna de Ângelis nos explica que às vezes os orgulhosos são pessoas que trazem lembranças de uma vida passada, ou de várias vidas, em que tinham poder, riqueza e servos, exercendo autoridade embora nem sempre possuidores de sabedoria ou elevação espiritual. Nesta vida, por hábito, querem ser tratados com deferência, sem contestação, e, embora às vezes na pobreza, trazem o ar de nobres, com a soberba e as exigências descabidas... (2006, p. 161)

 

Esopo, criador da conhecida Fábula da Cigarra e da Formiga, era um escravo grego que foi libertado pelo seu dono por causa da admiração que tinha por suas fábulas e histórias de ensinamentos morais. Ele conta que um dia, Hermes, na mitologia grega um deus do Olimpo, quis saber o quanto era apreciado pelos homens, já que ele era um deus mensageiro e favorecia o comércio dos humanos. Desceu à Terra em forma de homem e foi a uma loja com esculturas de deuses do Olimpo. Viu uma estátua de Zeus, o rei dos deuses, e quis saber o preço. O escultor disse que custava um dracma. Satisfeito, e vendo uma estátua de Hera, a esposa de Zeus, perguntou quanto custava. Foi informado de que era ainda mais cara. Então viu sua própria estátua! Perguntou quanto valia, já imaginando que seria bem mais cara, pois ele era muito conhecido.  Qual não foi sua decepção ao ouvir o escultor dizer: Se você comprar as outras duas, pode levar a de Hermes de graça...

 

Alexandre, o Grande, quando estava prestes a falecer, mandou chamar os seus generais, pois queria expor os seus três últimos desejos. O primeiro era que o seu caixão fosse carregado pelos médicos; o segundo desejo era que todos os seus tesouros conquistados em vida, como ouro, pedras preciosas, pratas, joias, fossem espalhados pelo caminho por onde seu caixão deveria passar, de casa até o túmulo; e o terceiro pedido era que suas mãos ficassem pendidas para fora do caixão, balançando no ar para que todos as vissem.

 

Diante de tão inusitados desejos, um general perguntou-lhe o porquê das orientações.

 

Alexandre então, calmamente, respondeu:

 

- Quero que os médicos, profundos conhecedores do corpo humano, carreguem meu caixão para que tomem consciência de que eles não têm o poder de cura diante do momento da morte. Meus tesouros cobrindo o chão por onde meu cadáver passará, são para lembrar de que os bens aqui conquistados, aqui ficarão. E minhas mãos balançando ao vento são para as pessoas verem que de mãos vazias viemos e de mãos vazias retornamos... 

 

Nos dias em que vivemos, constatamos a transitoriedade da vida material: basta um tremor de terra ou uma onda gigante e construções sólidas são carregadas como barcos de papel, mudando vidas, programações, jeito de se posicionar perante os semelhantes. 

 

No Evangelho de Tomé, ele recomenda:  Sejam transeuntes...  Estamos aqui de passagem. (MIRANDA, 1991, p. 248) 

 

E como ninguém pode prever o que nos aguarda ao dobrar a próxima esquina, a humildade é uma virtude que deveremos cultivar em nosso campo a fim de nos dar sustentação e calma nos momentos mais difíceis.

 

Para ser humilde precisamos nos conhecer em profundidade, pois humildade é ter a exata medida da nossa posição: nem mais nem menos do que se é.  Sentir que somos semelhantes aos demais, com nossas próprias características e respeitar as diferenças do outro.

 

No Evangelho há a recomendação para buscar o lugar mais humilde e modesto, ou seja, não se sentir mais importante do que se é. (Lucas, 14:1 e 7 a 11)

 

Quando o genial Joaquim Rodrigues, o célebre compositor do Concerto de Aranjuez e tantas outras belas composições, foi convidado a receber o Prêmio Príncipe de Astúrias, indagou encabulado: Por quê eu? (CARNEIRO, 2010, p. 146) 

 

É comum haver uma certa confusão entre humildade verdadeira e a falsa humildade.

 

Jesus, o Mestre humilde, conhecedor do seu papel entre nós, disse: Me chameis de Mestre porque Mestre eu sou!  (João, 13:13-14) 

 

Joanna de Ângelis comenta que às vezes a aparência de humilde é para mascarar a timidez, o medo, o complexo de inferioridade, a inveja... 

 

Libertar-se de aparências e ser naturalmente humilde, como Jesus Cristo ou Ghandi, não é alienar-se ou ser agressivo contra as demais pessoas e apresentar-se descuidado, sem higiene, indiferente às conquistas do progresso. Quem assim se comporta, desvela-se como preguiçoso e não humilde, bem como aquele que aceita todos os caprichos que se lhe impõem, e embora pareça, não possui a humildade real, antes tem medo dos enfrentamentos, das lutas, sendo conivente com as coisas erradas por acomodação, por submissão ou por projeção do ego que se ufana de ser cordato, bom e compreensivo.(1995, p. 156) 

 

Emmanuel, interpretando a lição evangélica dos talentos, diz que o medo não serviu de desculpa para o que enterrou seus talentos. ( 1972, p. 298)

 

Somos filhos da Luz, mensageiros do Bem, portanto devemos nos revestir de humildade e apresentar a todos aquilo que viemos trazer ao mundo.  Não se deve colocar a candeia debaixo do alqueire, mas sobre o velador, disse Jesus. (Marcos, 4:21)

 

Para isso Deus nos deu a inteligência e as condições necessárias para fazermos brilhar a nossa luz diante dos homens. (Mateus, 5:15) Para tanto, o combustível do amor incondicional será gasto, revelando a qualidade da luz...

 

Essa luz, tanto pode ser vista em lugares simples, com pessoas sem estudos, em condições adversas, como pode brilhar em ambientes de destaque da sociedade.

 

Joanna diz que muitos missionários reencarnam em grupos que detém poder no mundo, para servir melhor, pois só nessas posições poderão ser respeitadas suas opiniões e mais rapidamente serem colocadas em prática. (2006, p. 162)

 

A motivação que deve impulsionar é o serviço ao próximo, a divulgação do Bem, a implantação do Evangelho Redentor nos corações que habitam a Terra... 

 

Aquele que quiser tornar-se o maior, seja o servo de todos, disse Jesus. (Mateus, 20:20 a 28). Exemplificando, lavou os pés dos discípulos e andou com eles longas distâncias, fazendo o Bem incansavelmente.  Seguindo os seus passos, os cristãos primitivos elegiam os seus diretores entre aqueles que possuíam mais calos nas mãos, mais marcas de serviço no corpo, mais horas de dedicação ao próximo... 

 

Em nossos dias, além dos benfeitores encarnados que se encontram na linha de frente da batalha para espalhar a luz, temos inúmeros servidores anônimos, verdadeiras estrelas em nossa vida, sempre disponíveis para o consolo, executando tarefas mais simples, amparando os enfraquecidos pelas lutas contínuas.

 

Em nosso exercício para superarmos o orgulho, lembremos de ser humilde, sem o orgulho por sê-lo. Deixar transparecer em tudo o que faz e diz o propósito de se tornar verdadeiramente humilde, um servo do Senhor, um instrumento dócil nas mãos dos benfeitores espirituais. Examinemos a cada dia as nossas verdadeiras intenções ao realizarmos algo, sem receio de nos desmascararmos – tirarmos as máscaras da bondade, da simplicidade, do desprendimento.

 

Essa análise constante nos auxiliará a conviver bem com as críticas, os julgamentos, a inveja e o despeito.  Conhecendo nossas motivações mais íntimas saberemos que nosso júbilo é por havermos conquistado algo depois de muito sacrifício;  nosso entusiasmo é por querermos compartilhar a alegria por nossas descobertas que beneficiarão outras pessoas; nosso recolhimento é para executarmos tarefas que exigem concentração, silêncio e solidão. E o silêncio dos sábios é por que conhecem a alma humana e sabem que nem tudo pode ser dito, assim como nem todos os gestos podem ser expressos...

 

 

 

Referências:

 

Novo Testamento – Mateus, cap. 5, versículos 3; 5:15; 20:20 a 28

 

Novo Testamento – Marcos, cap. 4, versículos 21

 

Novo Testamento – Lucas, cap. 14, versículos 1 e 7 a 11

 

Novo Testamento – João, cap. 13, versículos 13 e 14

 

Ângelis, Joanna de / Divaldo Franco – Iluminação Interior. Salvador: LEAL, 2006.

 

Ângelis, Joanna de / Divaldo Franco –  Autodescobrimento – Uma Busca Interior. Salvador: LEAL, 1995.

 

Carneiro, Celeste – Arte, Neurociência e Transcendência. Rio de Janeiro: WAK Editora, 2010.

 

Emmanuel/ Francisco C. Xavier – Fonte Viva. Rio de Janeiro: FEB, 5ª edição, 1972.

 

Miranda, Hermínio C. – O Evangelho de Tomé: texto e contexto. Rio de Janeiro: Arte & Cultura, 1991.



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