
Medo de AIDS
Vem crescendo assustadoramente o número de pessoas contaminadas pelo vírus da AIDS. Saindo do círculo de grupos considerados de alto risco, espalha-se por todos os demais, independente da idade, do sexo ou da preferência sexual. Pode ocorrer com pessoas de vida sexual livre e promíscua, com hemofílicos, ou qualquer pessoa que lide com sangue, seja ela da área da saúde ou até mesmo um simples manicure. Pode dar-se também, com um dos parceiros de um casamento estável, bastando para isso que um dos dois tenha uma relação extraconjugal ou entre em contato com o sangue contaminado.
Com a disseminação do vírus letal, qualquer pessoa que se apresente de forma abatida, que perca peso ou cabelo, tenha pneumonia ou outros sintomas da doença, é olhada com desconfiança e receio.
Criou-se, paralelamente, o vírus do medo. O medo de se contaminar, o medo de ser discriminado e abandonado, o medo do sofrimento e da morte.
Nem todos, porém, que são contagiados pelo HIV, apresentam as características deprimentes dos pacientes terminais.
Assistindo a uma entrevista num canal de televisão, vimos uma jovem senhora, fundadora da Casa do Aidético, que dá assistência aos portadores do vírus, aqui em Salvador (BA), narrar a experiência que tivera com seu irmão.
Jovem e bem disposto, levava uma vida equilibrada. Não fumava, não bebia nem usava outras drogas; dormia cedo e levantava cedo; pautava sua conduta pela doutrina messiânica. Certo dia sentiu-se indisposto e foi procurar um médico. Internou-se para cuidar de uma pneumonia. Após os exames, foi constatada a presença do HIV. Com treze dias veio a falecer, para consternação de todos que lhe eram afeiçoados.
A maioria de nós ainda consideramos remota a possibilidade de algum familiar ou nós mesmo contrairmos a AIDS.
De acordo com recente pesquisa feita pelo IBOPE a pedido do Ministério da Saúde e publicada por revista de circulação nacional, quase a metade dos entrevistados acha que não existe o risco de ser contaminado pelo vírus HIV. E um pouco menos de pessoas acha o mesmo com relação aos seus familiares.
Enquanto isso, a doença vai se propagando, pois a maioria dos brasileiros tem receio de fazer o teste soro-lógico, não toma as devidas precauções ou se considera fora de risco…
Meditando sobre esses problemas da atualidade, ficamos a pensar na fragilidade da vida física e do nosso despreparo para a Grande Viagem, rumo à Vida Imortal.
Vivemos e pensamos como se o nosso corpo físico fosse imperecível… Receamos tanto o HIV e podemos morrer a qualquer instante, vitimados por inúmeras outras doenças ou vítimas de acidentes e assaltos, tão freqüentes em nossas grandes cidades.
E perguntamos: e se nós estivéssemos com AIDS? Se fôssemos acometidos de uma doença incurável, como passaríamos a viver?
Temos notícias da modificação do comportamento, da maneira de pensar e sentir, daqueles que foram surpreendidos com o vírus. Outros, só em pensar na possibilidade de contrair a enfermidade, refizeram suas vidas, passando a vivê-la de forma mais equilibrada.
E nos recordamos da conhecida resposta de Francisco de Assis ao ser indagado sobre o que faria se soubesse que iria morrer em breve: “continuaria cuidando do meu jardim”, que era o que ele fazia naquele momento.
Que bom se todos nós pautássemos a vida de tal forma que a desencarnação não viesse nos surpreender.
Ao nascermos, a única certeza que temos da vida que nos espera é a de que morreremos, ou seja, deixaremos o corpo material, para prosseguirmos como espíritos libertos.
A vida é um suceder de experiências e aprendizado visando uma feliz libertação do ser espiritual, rumo à Grande Luz. Compete-nos aproveitar cada instante, como aprendizes interessados que reconhecem o valor da oportunidade recebida. A hora e a vez da partida ninguém sabe, como diz Jesus, “só o Pai”.
Se estamos doentes ou não, se somos portadores do HIV ou outro vírus qualquer, o importante é que repen-semos sobre o que temos feito do ensejo que a misericórdia divina nos favoreceu para nos redimirmos e avançarmos no caminho do aprimoramento íntimo. É nos reconciliarmos com os nossos desafetos, apagando com o algodão do amor altruísta as manchas da mágoa, do ódio, da agressividade e outros sentimentos negativos que deixamos instalar-se em nosso coração. É expandir esse amor por toda a humanidade, principiando pelos que nos cercam e se estendendo pelos que nem conhecemos, ajudando-os e amparando-os com todo interesse e dedicação que devotamos àqueles que mais amamos. É trilhar a estrada do equilíbrio e abeirar-se das águas refazentes do Evangelho do Senhor, seguindo os passos dos seus discípulos, com esperança e fé.
E a morte não nos causará receio, nem a vida nos trará angústia e dor.
Celeste Carneiro