
Mágoa
Um dos nossos mais obstinados inimigos, que mais nos impede o progresso espiritual, é a mágoa.
Este sentimento corrosivo e pertinaz nos vem acompanhando séculos a fio, induzindo-nos a comprometimentos e vinculações infelizes, dificultando-nos e atrasando o encontro definitivo com a Luz.
Quando a mágoa nos visita o coração, ameaçando alojar-se dentro dele, tentemos educá-la, transformando-a em sentimentos de compaixão e compreensão, procurando, para isso, meditar em alguns itens que nos auxiliarão a evitar a sua presença e, uma vez instalada em nós, modificar o seu aspecto:
1 – Sempre que possível, não use intermediários. Fale diretamente com a pessoa do seu interesse.
Por timidez ou por comodismo deixamos, muitas vezes, de nos dirigirmos à pessoa com quem desejamos tratar de assunto do nosso interesse ou de quem dependa a solução para algum problema e passamos a dar ouvidos às opiniões de terceiros, retraindo-nos, magoados. Acontece que nem sempre essas opiniões são verdadeiras ou transmitem fielmente o pensamento atual de quem nos importa.
Às vezes, as pessoas se baseiam em opiniões emitidas, anos atrás, em circunstâncias desfavoráveis, dirigidas para quem precisava ouvir daquela maneira.
Ou, o que é comum, os nossos intermediários transmitem idéias que são frutos de suas análises pessoais, o que eles acham que o outro pensa, nem sempre condizentes com a realidade, infundindo-nos o temor de uma aproximação para um diálogo amistoso e esclarecedor.
2 – Não trace roteiros para os outros. As pessoas têm necessidades e limitações que desconhecemos
Uma das mais freqüentes causas da nossa mágoa é o hábito arraigado que possuímos de traçar roteiros para o próximo e criar expectativas em torno de seus atos. E, o que é pior, e como se já não bastasse isso, esperamos que ele, nosso amigo ou familiar, colega ou conhecido, tenha um comportamento de santo e adivinho, agindo sempre da melhor maneira possível e adivinhando os nossos sonhos e expectativas.
Geralmente, não desculpamos suas falhas, principalmente se estas nos atingem pessoalmente.
Esquecemo-nos de que as pessoas têm roteiros diferentes dos nossos, têm necessidades e limitações que desconhecemos e, assim como nós, possuem defeitos e dificuldades, às vezes divergentes das nossas, mas que, com esforço constante, tentam superar.
3 – Quando lhe faltarem com um compromisso, pense nos acontecimentos imprevisíveis a que todos estamos sujeitos, assim como nas falhas da Comunicação.
Ninguém gosta de ficar horas esperando por alguém que não vem. Nem de ter a frustração de alterar um programa, de última hora, porque o companheiro falhou na sua parte. E, aí, a mágoa chega, ameaçadora.
Quando nos encontramos com o amigo faltoso, verificamos que a mágoa foi sem fundamento, desde que ele tentou, por diversas vezes, entrar em contato conosco, mas não conseguiu. O telefone dava sempre ocupado, ou chamava e ninguém atendia, ou quem atendeu não transmitiu o recado, por algum motivo qualquer, também justificável. E, às vezes, nem deu para telefonar.
Todos nós estamos sujeitos a acontecimentos imprevisíveis, que nos colhem de surpresa, não dando tempo para desfazer compromissos assumidos anteriormente.
Antes de nos magoarmos, esperemos a justificativa do amigo. Estipulemos, antes, um tempo suportável de espera, ao fim do qual, caso ele (a) não chegue, trataremos de outros interesses, sem ressentimentos; pelo contrário, orando por sua paz.
4 – Não se aborreça com as opiniões alheias a seu respeito.
Cada pessoa é um mundo indevassável e surpreendente. Há pessoas que se consideram infalíveis em suas análises de personalidade dos que se lhe aproximam. Traçam o perfil psicológico das pessoas com a mesma facilidade com que traçam um roteiro ao centro da cidade.
Por mais que convivamos com uma pessoa, não a conhecemos integralmente. Poderemos entrever facetas de sua personalidade em determinado momento, mas estamos longe de conhecer-lhe intimamente, por mais ligada que nos seja.
Cada pessoa é um mundo indevassável para nós, imprevisível porque mutável, composta de inúmeras facetas que se deixam mostrar de acordo com a ocasião, as circunstâncias, as pessoas que a cercam.
Desse modo, desculpemos quem nos analisa. Em realidade, não nos conhecem como pensam conhecer.
5 – Nada possuímos, nem somos donos de ninguém.
O sentimento de posse tem sido a causa de muitos sofrimentos. Sofremos quando nos roubam os bens materiais, sofremos quando perdemos afetos que julgávamos nossos. Enquanto vivemos na Terra, estamos sujeitos a freqüentes perdas. Tudo o que possuímos são empréstimos da Divindade para aprendermos as lições do Amor na escola da Vida.
Nem tudo que é nosso nos acompanhará na Grande Viagem. Deixaremos roupas e calçados, casa e fazendas, carros e jóias e tudo aquilo que se constitui interesse material: as nossas pequenas posses, pelas quais tanto brigamos e nos magoamos, nossos discos e livros de estimação, nossos objetos de uso pessoal e infinidades de coisas que nos apegamos tanto e um dia seremos obrigados a deixar para que os outros façam o que bem queiram e entendam…
Porém, a mágoa que mais dói e consome, é aquela causada pela perda do ser amado. O sentimento de abandono tem nos causado tanto ressentimento, que, durante séculos vimos caminhando para ressarcir as faltas cometidas perante a Lei Divina, motivadas por essa forma de sentir.
As pessoas têm o seu caminho próprio que nem sempre é ao nosso lado por muito tempo. Cada pessoa está conosco apenas por um pouco, devendo seguir outros rumos que não são os nossos. Assim como nós passamos pela vida de alguém, muitos também passam pela nossa vida, deixando a experiência, as lições, as boas lembranças.
Mesmo que alguém permaneça durante toda a vida física ao nosso lado, haverá períodos em que estará distante emocionalmente, sintonizado com outros interesses diferentes dos nossos.
Aproveitemos, pois, a presença dos nossos afetos, para usufruirmos dos seus sentimentos e vivermos esses momentos da melhor maneira possível, a fim de que sejamos um aconchegante raio de luz em suas recordações.
Preparemo-nos para deixa-los partir a qualquer momento, quando assim se fizer necessário, distanciando-se para outras experiências, nesta ou na outra vida, sem guardar mágoa nenhuma, lembrando de que Deus é quem verdadeiramente nos supre as carências e nos acompanha eternamente.
6 – Dê mais uma chance. As pessoas se modificam.
Quando alguém nos machuca o sentimento e passamos a agasalhar a profunda mágoa no coração, apertando o peito, sufocando-nos a alma, firmamos o propósito íntimo de nunca mais nos aproximarmos dele (a), nem ensejar-lhe oportunidade alguma de reatamento nos laços afetivos.
Ignoramos, certamente que em muitos casos, o rompimento abalou-lhe a estrutura interna, levando-o a profundas reflexões em torno dos seus atos, dando início a uma nova fase, com mudança de comportamento para melhor, numa tentativa de reabilitação.
Nós somos mutáveis. Cada dia crescemos um pouco, espiritualmente, estando em contínuo movimento ascensional. Experimentemos esquecer as ofensas e olhemos quem nos fere com o olhar do perdão. Isto nos fará viver melhor.
Procuremos dar mais uma chance, confiantes de que as pessoas se modificam constantemente e muitos aguardam uma oportunidade para demonstrar o seu arrependimento e os seus novos propósitos.
7 – Ao dizer “até logo”, pense que talvez o faça pela última vez nesta vida.
Talvez, por instinto de conservação, pensamos ou agimos como se esta vida no corpo físico fosse eterna. Alimentamos rixas infindáveis, conservamos rancores e desavenças, adiando sempre o instante de reconciliação e fraternidade.
Deixamos de valorizar e demonstrar nosso afeto e admiração por quem convive conosco, esquecidos de que, a qualquer momento, Deus pode tira-los de nossa companhia, assim como podemos também partir de uma hora para outra.
Quantas pessoas partem para a Vida Espiritual de repente, deixando-nos com a sensação de perda de oportunidade de lhe fazer conhecido o nosso afeto, apesar dos desentendimentos passageiros!
Quantas vezes somos surpreendidos com a inutilidade do ódio escurecendo nossa aura, ao vermos partir, inesperadamente, para o Além, aqueles que julgamos odiar!
E quando teremos uma nova oportunidade de reconciliação? Só Deus sabe…
8 – Nem sempre navegamos em águas tranqüilas…
Dizem que uma dor nunca vem sozinha.
Às vezes, em nossa vida, temos a impressão de que Deus recolheu tudo o que nos diz respeito e jogou para cima. Ao assentar, nunca será do mesmo jeito que era antes.
Quando as águas do nosso mar se tornarem revoltas, e os acontecimentos parecerem querer nos levar de supetão, não fiquemos magoados com a Vida.
Embora não podendo viver no mesmo ritmo de antes, procuremos estar em paz, aceitando que estes são momentos especiais em nossa vida, não nos perturbando por não podermos executar normalmente as tarefas de rotina.
Aproveitemos para tirar vantagem da nova situação, assimilando ao máximo as lições que são oferecidas nessa fase transitória e passageira.
Em períodos, assim, Deus está mandando avisos, despertando-nos a atenção para a Sua amorosa sabedoria…
Os contratempos que tanto nos aborrecem, são providências divinas poupando-nos de dores maiores.