
Cegueira, uma Questão de Visão – Parte 1 – Visão da Ciência
Imagine você com os olhos abertos e vendo tudo escuro, ou como uma névoa onde só é perceptível alguns vultos… Imagine que sempre foi assim, desde que você nasceu. Ou que aconteceu em dado momento da sua vida, deixando apenas a lembrança da forma como você via o cenário à sua volta, as pessoas e tudo mais.
A forma de lidar com isso difere de pessoa para pessoa.
Oliver Sacks escreve no artigo O Olho da Mente – O que os cegos vêem (1), a experiência de cegos que narram como vivem e o que percebem.
O primeiro que ele cita, John Hull, professor de Ensino Religioso, aos 13 anos teve catarata perdendo a visão do olho esquerdo depois de quatro anos do início da doença. Aos 48 anos ficou totalmente cego e foi perdendo também a memória visual e a capacidade de imaginar cenas, o que ele define como “cegueira profunda”.
Nesse estado, ele desenvolveu uma percepção bem apurada, sendo, no dizer dele, “um vidente de corpo inteiro”. Assim, ele consegue distinguir nuances da natureza que nós que enxergamos não prestamos atenção para esses detalhes. Como exemplo, cita o som da chuva caindo no chão que é diferente da chuva no gramado, nas plantas ou na cerca.
A plasticidade cerebral faz com que outros sentidos tornem-se mais apurados, como no caso, a hiperacuidade devida a realocação do córtex visual, como foi demonstrado em estudos comparativos com as pesquisas da cientista Helen Neville, da Universidade de Oregon, que estudou a surdez em crianças antes de completarem os dois anos de idade, observando que as partes auditivas do cérebro foram “realocadas” para a área de linguagem visual.
Pessoas adultas que enxergam normalmente podem passar por alterações fisiológicas no cérebro e desvios em formas não-visuais de comportamento e cognição caso permaneçam cinco dias de olhos vendados, diz Oliver Sacks, citando os estudos do neurocientista Álvaro Pascual-Leone e colegas da Universidade Harvard.
O segundo exemplo, Zoltan Torey, psicólogo australiano, cego desde os 21 anos por causa de um acidente no trabalho em uma indústria química.
Ao contrário do primeiro, este desenvolveu uma capacidade enorme de imaginação visual através do seu “olho interior”, capaz de consertar telhados e visualizar o interior de uma caixa de embreagem.
Uma outra deficiente, Sabriye Tenberken, com dificuldades visuais desde o nascimento, distinguia rostos e paisagens até a idade de 12 anos. Ela era portadora de sinestesia, uma alteração visual onde a pessoa vê cores em números e palavras. Desde criança gostava muito de pintar e se comunicava usando as cores para descrever objetos.
E assim, em plena cegueira, ela usava a imaginação e o colorido para se orientar no tempo e no espaço.
Oliver Sacks conta sobre a percepção apurada de um outro deficiente visual, Jacques Lusseyran, cego devido a um acidente, aos 8 anos de idade. Perdeu a lembrança dos rostos mais familiares e passou a ativar o olho interno, o córtex visual, construindo uma espécie de tela onde projetava o que queria, com bastante cores e luzes. Considerava este senhor a cegueira como uma possibilidade de melhor perceber outros sentidos, como o paladar e o tato. Da mesma forma ocorre com o psicólogo e psicanalista Dennis Shulman, cego desde a adolescência, e que desenvolveu apurada sensibilidade, percebendo o humor de seus pacientes, as variações sutis da fala, estados de tensão ou ansiedade, reconhecendo-os pelo olfato.
Pessoas há que são portadoras da visão subnormal, não sendo totalmente cegos, mas muito limitados em sua capacidade visual, o que não os impede de ter uma vida normal também.
Paul Bach-y-Rita, criador de um aparelho para que os cegos vejam – uma câmara acoplada à testa que leva sinal até um dispositivo eletrônico que transforma os padrões de claro e escuro em impulsos elétricos, sendo levada a imagem codificada até a língua, diz: Há múltiplos sistemas que saem de todos os órgãos dos sentidos e vão para todas as áreas sensoriais do cérebro. E Helen Phillips completa: Quando se perde a principal fonte de informação dos olhos para o córtex visual, assumem o controle vias mais fracas, que vêm da pele, dos ouvidos, da língua e assim por diante. É o que acontece com quem lê em braille. Para esta tarefa, aciona-se o córtex visual para sentir o formato das letras. (2)
O que tem facilitado muito a participação do deficiente visual nas atividades do dia-a-dia é o Virtual Vision, um software criado para falar sobre o que aparece na tela do computador, conduzindo assim o deficiente pelo mundo virtual.
Através desse meio, recebi o depoimento de Luis Carlos Pistelli, fisioterapeuta, professor e músico, atuando na Universidade de Campinas, SP.
O seu pai ficou cego já adulto por causa de um cisto junto ao nervo ótico e se casou tendo três filhos. O último, Luís Pistelli, nasceu cego, por uma malformação da retina, com comprometimento nas terminações do nervo ótico e da circulação adjacente. Como ele não via muita luz, e o contraste era maior que hoje, podia ler letras grandes, nos jornais e revistas.
Seu pai lhe estimulava incessantemente a fim de perceber as diferenças das cores, os detalhes de tudo o que havia, inclusive dos instrumentos musicais, colocando-o para ouvir músicas, principalmente as clássicas.
Sobre sua experiência, ele diz:
A estimulação com papel celofane (para perceber cores) começou quando eu tinha uns 10 meses, mais ou menos; meu pai fez, em uma lata redonda, algumas janelas, onde colocava os quadrinhos de papel celofane. Em seguida, num ambiente escuro, ele colocou uma lâmpada dentro da lata. Então, ele ia girando a lata, para que eu fosse estimulado a perceber as diferenças da luz, passando pelo papel celofane. Na verdade, durante toda minha infância, meu pai não deixava de me estimular ao movimento, à orientação direcional e espacial, às brincadeiras, enfim, a tudo quanto fosse estímulos ao meu desenvolvimento. Foi nesse período que ele me fez escutar muita, muita música, principalmente a música clássica, por horas a fio, me chamando a atenção para as diferenças entre instrumentos, vozes, interpretações, etc.. Daí, o meu amor pela música e tudo que está relacionado a ela; hoje, além de fisioterapeuta, sou músico, toco violão e piano, além de cantar e compor. O destino me pregou uma grande peça, ao levar meu pai, quando eu tinha 9 anos. Mas acho que, seguindo os passos dele, eu pude continuar minha trajetória de estimulações sucessivas e, principalmente, de luta; tive de lutar muito, juntamente com a família e amigos, para chegar onde pude chegar; não foi nem um pouquinho fácil…
Mas eu não posso afirmar que via cores; o grau de visão não me permitia isso. Eu procurava imaginar, ligar fatos às cores, como as pessoas descreviam, em conversas, tentando fazer relações fictícias entre rostos, cores, roupas, sei lá o que mais. Juntando tudo isso, eu fui como que “montando” imagens, idéias do mundo, das formas, dos rostos, etc., etc..
Mais ou menos aos 13 anos, a quantidade de luz aumentou um pouco, porém o contraste diminuiu, não me permitindo mais ler as manchetes dos jornais, nem contar os andares de um prédio, como eu o fazia antes. Isso já tinha sido previsto pelos médicos, que afirmavam ter a retina, com o tempo, diminuído sua capacidade de focalizar as imagens, sendo por este motivo que meus olhos se movimentam continuamente, talvez tentando centralizar as imagens. O fato é que, hoje, eu percebo a luz, mas o contraste é bem ruim, como se você estivesse olhando por um vidro fosco. Para estudar, desde o primário até hoje, usei o Braille e, atualmente, o computador, com o software que fala, o Virtual Vision.
Luís também nos fala sobre o sonhar de quem não vê:
Bem, falando sobre os sonhos, eu acho que a mente se utiliza de um monte de informações para montar idéias e cenas. Na verdade, tem alguns sonhos que são muito claros, com uma visão nítida de imagens, formas, expressões dos rostos, cores e muito mais. Isso acontece naqueles sonhos em que a gente, inclusive, parece que tem condições de decidir que atitudes tomar. Digo isso, porque acredito que existem sonhos em que a gente é colocado diante de uma seqüência de fatos e cenas, onde, (parece), que não podemos decidir nada, somente assistir às coisas. E existem sonhos em que a gente vê com clareza, sente frio ou calor, conversa com pessoas e toma decisões, às vezes, até, experimentamos as conseqüências de decisões diferentes, tomadas num mesmo sonho. Para mim, essas diferenças existem sim.
Nesses sonhos, onde vejo as cores, eu sei lá, mas eu vejo o vermelho, por exemplo, como uma cor meio escura, que, no entanto, reflete a luz e irrita, machuca os olhos. O verde, por exemplo, é uma cor um pouco mais clara, mais descansada, que absorve um pouco mais a luz, não incomodando tanto a visão. Assim, eu encontro, ou vou encontrando “falsas explicações” para todas as cores; mas o fato inegável é que eu as vejo nos sonhos e as diferencio umas das outras. Às vezes, eu penso que essas tentativas de definição das cores sejam pura loucura; afinal de contas, não existem definições para as cores, assim como não existem definições para as sensações. Mas é a forma como eu as vejo nos sonhos.
Espero que essas palavras possam ajudar os amigos a compreenderem como as cores existem para nós, os cegos.
Luis Carlos Pistelli”
Com relação aos sonhos dos deficientes visuais, Hélder Bértolo, um físico português, fez uma pesquisa para alcançar esse universo. Licenciado em Física Teórica, defendeu a tese de mestrado em Biofísica e Física Médica abordando o tema “O Sonho e Imagem em Invisuais”.(3)
Ele acompanhou 30 voluntários cegos enquanto dormiam, monitorando seus sonhos através de um registrador polissonográfico que registrava todas as ondas cerebrais, sendo acordados pelo investigador, em várias fases do sono, para falarem sobre o que estavam sonhando. Esses sinais cerebrais eram comparados com as análises do conteúdo relatado pelos voluntários.
Hélder Bértolo concluiu: “Quando nós ouvimos o relato do sonho não conseguimos distinguir se é de um cego ou de um normovisual. É um sonho normalíssimo”. E mais adiante: “Se soubermos exactamente que tipos de sinais é que incitam determinado tipo de imagens é mais fácil depois trabalhar com esse mecanismo”.
O estudo consultado completa:
Os resultados demonstraram que não há grande distinção entre o sonho de um cego e o de um normovisual. Uma pessoa sem deficiência visual, quando visualiza algo, directa ou mentalmente, bloqueia as ondas alfa que tem no cérebro. Se fechar os olhos as ondas aparecem, mas se imaginar um objecto desaparecem novamente e aparecem altas frequências.
O estudo conclui que os cegos têm conteúdos visuais e que, nos seus sonhos, ao contrário do esperado, descrevem cenas visuais.
O cego que já viu perde o acesso à memória, mas não a inutiliza e terá a capacidade de reaprender. Com os cegos congênitos é mais complicado por nunca terem utilizado o córtex visual. Mas a verificar-se, como comprova este estudo, que os cegos o utilizam mesmo sem saberem, há boas perspectivas de utilização de tudo o que nele está contido.
E conclui: Mas, se a visão é uma aprendizagem levada a cabo pelo cérebro, o que vemos é uma interpretação que o cérebro faz daquilo que os nossos olhos captam. Desta forma, se os cegos têm a capacidade de gerar imagens terão de ser depois treinados a ver.
São boas as perspectivas, e assim como foi criado o Olho-Dobelle, um aparelho que transmite ao cérebro por meio de impulsos elétricos, em tempo real, o que se passa no ambiente, sendo possível ao deficiente visual não-congênito perceber, em variáveis gradações de acordo com a limitação de cada um, também poderemos esperar que a tecnologia, aliada à neurociência, descubram meios de facilitar a vida de quem tem esse tipo de deficiência, assim como qualquer outra limitação. Afinal, vivemos para ser felizes e este é o nosso maior e melhor aprendizado!
Referências:
1. SACKS, Oliver . O Olho da Mente – O que os cegos vêem. Revista Mente & Cérebro – Ano XV, nº 176
2. Revista Viver Mente & Cérebro – nº 156 – jan. 2006
3. http://www.fcsh.unl.pt/cadeiras/ciberjornalismo/ciber2000/invisuais/sonhar.htm
4. http://www.institutodafelicidade.org.br/?pg=blind Acesso em janeiro/2008