Cegueira, uma Questão de Visão – Parte 2 – Visão da Arte sem Visão

Cegueira, uma Questão de Visão – Parte 2 – Visão da Arte sem Visão

2 de junho de 2002

O autor do belíssimo Concerto de Aranjuez, Joaquín Rodrigo, cego e genial, afirmava que, graças à cegueira que o acompanhou desde os três anos de idade, enxergava seu mundo interior. “A perda da visão me levou à música”, dizia ele. “As pessoas cegas são mais felizes, talvez por causa deste rico mundo que permite os vôos da imaginação.” (1)

Aos 97 anos de idade faleceu, deixando o mundo mais belo e enriquecido com sua vasta obra artística e cultural. Lecionava História da Música na Universidade de Madri, foi diretor musical da Rádio Espanhola e do Departamento de Artes da Organização Nacional Espanhola para os Cegos, crítico de vários jornais, muito premiado, recebendo o mais importante da Espanha, o prêmio Principe de Astúrias.

A sua obra mais conhecida, o Concerto de Aranjuez, foi levado para a Lua, em 1969, para inspirar o astronauta americano Neil Armstrong.

São notáveis também os relatos sobre pacientes com demência fronto-temporal (DFT) capazes de desenvolver habilidades artísticas surpreendentes. Geralmente os danos são no hemisfério esquerdo do cérebro e o hemisfério artístico, o direito, compensa generosamente, em especial nos savants e autistas, como é o caso do americano virtuoso musical, deficiente visual, Leslie Lemke, tocando piano com perfeição desde os 14 anos, sem nunca haver estudado piano, e o faz apesar de ser mentalmente incapaz e ser portador de paralisia cerebral. Há um vasto estudo acerca dessas pessoas realizado por Bruce L. Miller, da Universidade da Califórnia em São Francisco. (2)

Andrea Bocelli, Ray Charles, Steve Wonder, são alguns desses músicos que nos deleitam a alma com suas vozes tão expressivas e contagiante amor pela vida.

Podemos assistir ao video de Steve Wonder cantando I just called to say I love you no site:
http://br.youtube.com/watch?v=YBxNawVHX34

Sobre ele, corre por aí um silogismo crítico que diz: “Deus é amor. O amor é cego. Steve Wonder é cego. Steve Wonder é Deus.”

Mas, nem só de músicos vive o reino obscuro dos deficientes visuais. Também podemos encontrar artistas plásticos, trabalhando com pintura, escultura, fotografia e tecelagem, assim como poetas, dançarinos, jogadores de capoeira… Na área da saúde, alguns são sensíveis massoterapeutas.

Falaremos um pouco de alguns desses artistas:

 

Virginia Vendramini

Virginia Vendramini (3) dedica-se à tecelagem, à pintura, é professora, poeta, e é uma das personagens principais do documentário “Janela da Alma”. Nascida no interior de São Paulo, mora no Rio de Janeiro desde 1961. Formou-se em Letras, especializando-se em português e literatura.

Trabalhou no setor de reabilitação, ensinando braille para portadores de deficiência visual no Instituto de Medicina Física e Reabilitação Oscar Clark e presta serviços ao Instituto Benjamin Constant (IBC).

Devido a um glaucoma congênito e uma grave lesão no nervo ótico, ela cresceu enxergando muito pouco, ficando totalmente cega aos 16 anos. Seus pais a cercavam de materiais para colorir, dava-lhe caleidoscópios e estimulavam-na a usá-los. Conservou a memória visual e, já adulta, teve contato com a tecelagem, sentindo-se desafiada a produzir tapetes e quadros nessa técnica.

Diz ela: “Insisti em aprender para mostrar que eu podia. Meu primeiro tapete se chamou Alegria, Alegria e era exatamente o que ele representava para mim, naquele momento. A criação é vida para mim. Me manter criando é me sentir viva.”

“Minha cegueira não é escura e cinzenta, mas cheia de cores e formas. Em minhas obras os desenhos nascem instintivamente, crio meus tapetes no momento em que começo a ter contato com a tela e as lãs. O resultado final sempre surpreende as pessoas e a mim mesma.”

Faz pintura a dedo e publica seus poemas com o resultado da venda dos seus tapetes. Já são quatro livros publicados. A Telemar utilizou seus tapetes e poemas como temas dos cartões de telefone. Informações: 8412-1000

Como fazer obras de arte sem enxergar?

Os poemas eram escritos inicialmente em braile, depois passou a usar o computador. Os tapetes, que aprendeu a fazer sozinha, ela cria o desenho livremente, e vai fazendo os pontos com as linhas selecionadas por cores. O vendedor lhe ajuda na seleção das cores e, no começo, seu ex-marido também lhe dava dicas de como fazer o trabalho. Depois, com a prática e a sensibilidade tudo fica mais fácil, fluindo com espontaneidade.
Diz ela: Eu não acreditava que meu trabalho fosse bom. Demorei muito paro adquirir autoconfiança. Eu não queria que as pessoas gostassem do meu trabalho só porque era uma coisa diferente que uma pessoa cega faz e outras não fazem. Eu não queria que meu trabalho como artista tivesse esse tipo de aprovação. As pessoas ficam sempre admiradas com as coisas mais bobas, isso faz parte da maneira como elas encaram a deficiência: uma coisa mais limitadora do que ela é na realidade. Eu não queria passar por isso. Eu queria que o meu trabalho fosse apreciado, se tivesse valor.

 

Evgen Bavcar

Evgen Bavcar (4) (lê-se Eugene Bauchar), natural da Eslovênia, vive em Paris onde é fotógrafo, Doutor em História e em Estética pela Sorbonne, filósofo e cineasta, conhecido internacionalmente. Trabalha como investigador do Centro Internacional de Investigação Científica.

Perdeu a visão aos 12 anos de idade em dois acidentes. Primeiro, o olho esquerdo foi perfurado por um galho de árvore e, pouco tempo depois, brincando no quintal, houve uma explosão de um detonador de minas com o qual ele brincava, provocando a cegueira completa no outro olho oito meses depois.

Sua irmã lhe apresentou uma máquina fotográfica quando ele tinha 17 anos, mostrando como funcionava. Encantado com a possibilidade de captar os momentos que lhe proporcionavam agradáveis impressões, correu até a escola para fotografar a garota por quem era apaixonado.

Desde então, apaixonou-se pela fotografia. Sua irmã lhe ajudava descrevendo o cenário, alguns amigos lhe instruíram com relação ao tempo e à velocidade a ser colocado na máquina para colher uma boa foto. Diz ele: Se eu não tivesse conhecido pessoas fantásticas como o sr. Bauchem Simom, que me ensinou como as imagens eram capturadas pelo filme, e outro senhor, que me ensinou o processo de funcionamento da câmera escura, eu não teria compreendido que a fotografia não é uma propriedade exclusiva das pessoas que vêem. Mas também uma propriedade possível dos cegos.

Através das imagens ele exterioriza o seu imaginário interior, suas recordações de quando enxergava ainda criança na Eslovênia. Avalia as fotos através das opiniões de quem as aprecia. Procura sempre a opinião de quem está neutro em relação ao motivo fotografado, evitando a opinião, por exemplo, do namorado da jovem fotografada… Minhas fotografias só existem para mim enquanto existem para os outros. A palavra de outros olhos me conta a realidade física de minhas fotografias. Conheço somente suas realidades conceitual e espiritual, reveladas por meu terceiro olho, com o qual eu fotografo, esclarece.

Diz mais: Todos os fotógrafos precisam de um quarto escuro, devem revelar seus filmes em uma sala escura. E toda a minha vida é uma sala escura, eu sou uma sala escura, usando uma máquina por onde entra a luz. Por que não poderia fazer fotos? Isso não é uma provocação e sim um desejo interior de fazer imagens.

Para fotografar, explica ele como faz: Uso uma Leica Minilux e uma Lomo, máquina de origem russa. A única adaptação é pontos fixados na lente para o ajuste do foco, o primeiro ponto para distâncias de até 0,5m, o segundo para 1m e o último para o infinito. A produção de uma foto pode levar meses de sonhos e imaginação de como fazer para conseguir o resultado desejado.

Sendo tão hábil e com uma formação tão vasta, quando lhe perguntam se toca algum instrumento ele responde que sim, pois recebeu educação musical no Instituto de Cegos onde estudou, mas evita aliar a imagem do cego ao tocador de algum instrumento musical, como se só houvesse essa opção para os deficientes visuais. Na verdade, ele gostava muito de cantar quando era estudante e hoje toca em casa os instrumentos que aprecia: violino, outros instrumentos de corda e harmônica.
Poliglota, fala francês, espanhol, italiano, alemão, inglês, esloveno e servo croata, aprendido nos seus momentos de solidão, quando os amigos se afastaram ao vê-lo deficiente, forçando-o a se distrair com revistas internacionais e estudando os mais diversos assuntos.

Já esteve no Brasil algumas vezes, participou do congresso Arte Sem Barreiras, em Belo Horizonte, guardando boas lembranças de nossa cultura, impressionando-se com o colorido que lhe foi descrito. São suas essas palavras: As minhas imagens interiores são sempre monocromáticas, porém, no Brasil, são monocromos com tons de verde.

Descrevendo a cegueira, ele diz: Para mim, os cegos representam o único grupo que ousa olhar o sol diretamente nos olhos.

 

Márcia Corrêa de Sá e Benevides (5)

Márcia perdeu a visão aos 26 anos, há uns dois anos atrás, mas nem por isso deixou de concluir o curso de Psicologia no IBMR — Instituto Brasileiro de Medicina de Reabilitação, no Rio de Janeiro.

Além de trabalhar como psicóloga, dedica-se também à escultura, sendo uma delas a escultura intitulada O Eremita, a capa da Revista Benjamin Constant em setembro de 1997.

Mesmo para as pessoas com a visão normal, a escultura nos solicita o toque. É como se, para compreendermos a plasticidade de uma obra esculpida necessitássemos do contato direto, sentindo a textura, as nuances da forma…

Em Brasília, o grupo Artes Táteis, criado para estimular deficientes visuais a realizarem esculturas em argila, promoveu uma curiosa exposição: os trabalhos ficaram expostos numa sala escura e os visitantes “viam” as esculturas através do tato… como foram realizadas.

O trabalho com as mãos, o mexer com o barro, o construir formas, suscita lembranças arcaicas que conduzem às sombras de um tempo primitivo e retornam com a luz de uma nova construção e ressignificação.

Ângela Philippini6, no livro Cartografias da Coragem (p.67), falando sobre o trabalho com argila, nos diz:

A palavra mão deriva do sânscrito mana, que quer dizer mente, pensamento e, certamente, o fazer com as mãos equivale a configurar, processar, ordenar e, em última instância, elaborar.
As mãos, desde tempos imemoriais relacionavam~se com o divino através da natureza e seus elementos vitais (ar, água, terra e fogo). …

Da terra que materializava do objeto utilitário ao objeto do culto, “mãe dos mortos e mãe dos grãos”, onde germinavam sementes, sonhos e projetos. Das águas que, fluídas, umedeciam, disso1viam, purificavam, batizavam e propiciavam iniciações e que, coloridas, em “COR-ação”, pintavam oferendas, sentimentos e desejos.

Nas tradições de diferentes culturas vamos encontrar outros registros sobre a importância das mãos como instrumento de poder e transformação.

Referências:
1.Moschella, Alexandre. Uma visão interior . www.alexandremoschella.com/ensaios/rodrigo.htm
2. Revista Viver Mente & Cérebro – Edição especial nº 5
3. www.virginiavendramini.com.br
4. photos.uol.com.br/materia.asp?id_materia=312 www.ufrgs.br/jornal/setembro2001/entrevista.html
5. 200.156.28.7/Nucleus/media/common/Nossos_Meios_RBC_RevDez1997_Cartas.doc www.ibc.gov.br/?catid=4&itemid=49 e rjtv.globo.com/…/0,9310,406313_10,00.JPG
6. Philippini, Ângela. Cartografias da Coragem. 3ª. Edição. Rio de Janeiro:Wak, 2004

Para saber mais:
1. www.institutodafelicidade.org.br/?pg=blind-artists
2. www.institutodafelicidade.org.br/?pg=blind

* Celeste Carneiro é terapeuta junguiana e transpessoal, arteterapeuta e professora em cursos de pós-graduação. Possui livros e artigos publicados.

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