Inteligências Múltiplas – Do QI ao QS

Inteligências Múltiplas – Do QI ao QS

2 de novembro de 2003

O governo francês, em 1900, preocupado com o rendimento escolar de suas crianças, encomendou ao psicólogo Alfred Binet um teste para avaliar quais as crianças que seriam bem sucedidas nos primeiros anos escolares e quais as que não conseguiriam ir bem nos estudos, buscando uma forma de auxiliar estas a obterem melhor aproveitamento na escola.

Por volta de 1908 já empregavam este teste, chamado de Quociente de Inteligência – QI.

Esta forma de avaliação criada por Binet e colaboradores avaliava a capacidade lingüística e lógico-matemática, obtendo, com precisão, um perfil da inteligência do indivíduo.

Como tudo o que era lançado em Paris, chegava em outros países, os cientistas e educadores dos Estados Unidos receberam essas informações com entusiasmo.

Na época da Primeira Guerra Mundial o QI já era célebre. Foi amplamente utilizado para recrutar os soldados que seriam mandados para a Guerra.

Em 1967, em Harvard (EUA) foi criado o Projeto Zero, na Harvard Graduate School of Education, pelo filósofo e epistemólogo Nelson Goodman. Desafiando a noção universal de que os sistemas simbólicos lingüísticos e lógicos tinham primazia na forma de se expressar e de se comunicar, ele pesquisava outros sistemas simbólicos utilizados pelos seres humanos.

Goodman pesquisou os sistemas simbólicos utilizados nas artes, como a música, a poesia, os trabalhos corporais e visuais-gráficos. Adotava uma forma de observação cognitiva, pois, para ele, as artes eram vistas também como uma atividade mental, onde o artista precisava saber “ler” e “escrever” o sistema simbólico artístico, como diferenciar tipos de música, definir formas e cores para expressar estados emocionais diversos, saber estilos, distinguir conteúdos, etc.

Naquela época as artes estavam envolvidas por um ar de mistério, carregadas de emoção e magia, sendo mais um produto da intuição e da inspiração. A cognição estava vinculada à ciência e à solução de problemas.

No início da década de setenta o Projeto Zero passou à direção conjunta de David Perkins e Howard Gardner, que se dedicaram mais a questões psicológicas. Perkins, com o Grupo de Capacidades Cognitivas, onde pesquisava a percepção e cognição dos adultos e Howard Gardner com o Grupo de Desenvolvimento, estudando o uso de representações simbólicas por crianças normais e por crianças talentosas. Estes cientistas vêm procurando aplicar as análises e entendimentos decorrentes das pesquisas a programas escolares, desde as séries iniciais até a universidade. Criou-se, então, o Arts PROPEL, com as pesquisas das representações artísticas relacionadas ao desenvolvimento humano.

Em 1979 foi solicitado a este grupo de pesquisadores a investigação sobre A Natureza e Realização do Potencial Humano, que culminou com a publicação do livro de Howard Gardner Estruturas da Mente, em 1983.

Neste livro ele apresenta o resultado de sua investigação do potencial humano, constatando que existem não apenas as inteligências testadas pelo QI, mas um número desconhecido de capacidades diferenciadas. Para ele, inteligência é uma capacidade de resolver problemas e elaborar produtos de valor num ambiente cultural ou comunitário, podendo ser feito isto de múltiplas maneiras. Inicialmente essas inteligências foram catalogadas em sete, sendo expressas de formas diferentes, de acordo com cada pessoa. São elas:

1. verbal/lingüística – facilidade para se comunicar através de palavras, seja escrita ou oral

2. lógica/matemática – habilidade para raciocínio lógico e resolução de problemas matemáticos

3. musical – capacidade de criar, tocar, identificar ritmos e músicas

4. corporal/cinestésica – habilidade de se expressar usando o corpo, assim como executar tarefas com o corpo

5. visual/espacial – capacidade de percepção visual acurada, de localizar-se no espaço, de imaginar mentalmente, tanto formas como lugares

6. interpessoal – habilidade para se comunicar com as pessoas com empatia, identificando o que os outros sentem e necessitam, gerando harmonia

7. intrapessoal – facilidade de autoconhecimento

Atualmente foi acrescentada a inteligência naturalista – interesse pela natureza, com capacidade de identificar e classificar os diferentes seres da natureza, e a existencial – também chamada espiritual, que é quando a pessoa tem a tendência para questionar e compreender os grandes mistérios da vida, como o porquê da vida, do sofrimento e da morte, o conhecimento dos meios que levam ao divino, o contato com Deus; esta última ainda em estudo por Gardner, pois ele não havia identificado uma região no cérebro vinculada a este tema.

Todos os seres humanos possuem essas inteligências, mas algumas são mais desenvolvidas que as outras. Elas interagem entre si, se comunicam, porém algumas são mais facilmente externadas que outras.

Os cientistas, nas últimas décadas, têm se debruçado sobre o cérebro, este maravilhoso e intrigante órgão, que pesquisa e é pesquisado, de forma incansável e com resultados surpreendentes.

Inicialmente considerado como algo “eqüipotencial”, no dizer de Gardner, “com cada área capaz de servir à variedade das capacidades humanas”, atualmente as observações indicam “que áreas específicas do córtex possuem focos cognitivos específicos, e que, especialmente depois da infância inicial, existe pouca “plasticidade” na representação das capacidades cognitivas no sistema nervoso (Gardner, 1993).

Em 1981 o cientista Roger Sperry ganhou o prêmio Nobel em Medicina e Fisiologia por causa de suas pesquisas relacionadas às funções cerebrais. Ele, juntamente com sua equipe, conseguiu relacionar várias regiões do cérebro com as suas funções específicas, clareando o papel do hemisfério cerebral direito, até então pouco conhecido.

Dentre outras descobertas, até agora ficou esclarecido que a linguagem, o raciocínio lógico, determinados tipos de memória, o cálculo, a análise são próprios do hemisfério esquerdo. Enquanto que o direito não usa palavras, é intuitivo, usa a imaginação, o sentimento e a síntese.

O hemisfério esquerdo do cérebro interpreta literalmente as frases ditas, já o hemisfério direito percebe a intenção oculta de quem fala. O esquerdo entende pelo aspecto lógico, racional e seqüencial e o direito compreende aos saltos, tem insight e visão holística.

O nosso alfabeto, por ser silábico, estimula o hemisfério esquerdo; os ideogramas dos orientais, utilizando símbolos, desenvolvem o hemisfério direito. No idioma japonês, por exemplo, que são usados símbolos e sílabas, os dois hemisférios são estimulados no ato da leitura.

O hemisfério esquerdo percebe sons relacionados com a linguagem verbal e o hemisfério direito percebe músicas e os sons emitidos pelos animais.

O famoso compositor Maurice Ravel teve um Acidente Vascular Cerebral (AVC) no hemisfério esquerdo, na área de Wernicke. Emudeceu, perdeu a compreensão e a expressão da linguagem. Ele conseguia tocar piano, se sabia a música de cor, mas não tinha condições de tocar lendo partituras e não conseguia compor novas músicas, ou seja: transmitir através de interpretação ou escrita, juntar caracteres para formar frases ou melodias.

Surgiram novos instrumentos de avaliação do funcionamento do cérebro, como o MRI – imagens de ressonância magnética de alta resolução; o PET – tomografia de emissão de pósitron; mais recentemente o MEG – magnetoencefalógrafo, que é um aperfeiçoamento do EEG – eletroencefalograma e o TMS – estimulação eletromagnética transcranial.

Na década de noventa, conhecida como a Década do Cérebro, muitos estudos foram desenvolvidos nessa área.

Daniel Goleman publicou seu famoso livro Inteligência Emocional, (QE) onde valoriza a inteligência interpessoal e a inteligência intrapessoal. Sem elas dificilmente pensaremos e analisaremos com eficiência, e nosso relacionamento com as pessoas será insatisfatório.

Na Universidade de San Diego, Califórnia (EUA), o neurologista Vilayanu Ramachandran, diretor do Centro para o Cérebro e a Cognição, identificou, em 1997, o “ponto divino” no cérebro humano, localizado entre conexões neurais nos lobos temporais. É o local ativado quando se tem uma experiência mística. Trabalhando com pacientes epilépticos afetados no lobo temporal, com freqüente sensação de déjà-vu e alucinações visuais e auditivas, percebeu mais luminosidade nessa área. Resolveu experimentar com pessoas sadias, através do PET, o que ocorria ao ser mencionada a palavra Deus, ou símbolos que os levassem à transcendência, de acordo com a cultura do pesquisado. O resultado foi o mesmo.

Em 2000 Danah Zohar e Dr. Ian Marshall, no livro QS – Inteligência Espiritual, demonstram como funciona no cérebro este tipo de inteligência que aborda e soluciona problemas de sentido e valor, questões acerca do bem e do mal, sentir compaixão, alterar paradigmas. O QS unifica, integra e modifica o material que surge do QI e do QE. Integra razão e emoção.

Melvin Morse, o famoso pesquisador de Experiência de Quase Morte, também publicou um livro em 2000, sobre este assunto. Intitula-se A Divina Conexão.

Em setembro/2003, a revista francesa Sciences et Avenir publicou como reportagem de capa, o tema: Deus habita no cérebro direito. Um dos artigos, A biologia da fé, narra as experiências realizadas pelo Dr. Michael Persinger. Com um capacete emitindo ondas magnéticas são estimulados os lobos temporais do cérebro, fazendo com que o sujeito sinta algo semelhante ao sentimento do divino narrado pelos religiosos quando em meditação ou em prece.

Um outro artigo desta revista, Três experiências religiosas ao microscópio – Scaner do êxtase, conta a pesquisa realizada pelo neurofisiologista Andrew Newberg e o antropólogo das religiões Eugene dÁquili, da Universidade da Pensilvânia (EUA), com monges e freiras, convidados à meditar e orar, enquanto eram monitorados pelo aparelho de tomografia por emissão de pósitrons (PET). Neste experimento, foi detectada uma luminescência maior no lobo parietal direito de cada pessoa pesquisada.

Vilayanu Ramachandran, em recente artigo publicado pela Revista Cérebro e Mente, da UNICAMP, narra o resultado de suas observações em pessoas com lesões no lobo temporal: elas passam a se expressar de forma surpreendente através das artes e, de acordo com pesquisa realizada na Austrália, usando estimulação eletromagnética transcranial (TMS) e silenciando temporariamente os lobos frontais em adultos normais, a pessoa consegue fazer desenhos bem feitos e bonitos. Pergunta ele: “teremos que esperar por um derrame ou ataques epilépticos para desencadear este potencial? Ou ele pode ser conseguido através de meios menos drásticos?”

Temos percebido em nosso trabalho de estimulação cerebral através da arte, que muitos alunos realizam desenhos com temas espirituais, embora não tenham hábito de fazer este tipo de representação. Um adolescente, no final de uma das suas primeiras aulas, olhando para o seu trabalho, disse surpreso: “mas eu costumo fazer desenhos de caveiras, de homens lutando, e agora eu desenhei São Francisco!”

Como procuramos silenciar a mente e a voz enquanto realizamos as tarefas artísticas, provavelmente estimulamos também este ponto místico e, ao mesmo tempo revelamos o artista desconhecido que todos nós somos, como vemos nestes desenhos:

Buscando desenvolver cada tipo de inteligência que trazemos em estado latente, estaremos contribuindo para a nossa longevidade, formando novas conexões entre os neurônios, vivendo com maior clareza mental e dilatando nossa percepção do outro ser: aquele que está ao nosso lado e nem sempre o compreendemos. Nossa dimensão humana será mais ampliada e o divino em nós, mais presente e consciente, proporcionará um estado imperturbável de paz.

Celeste Carneiro

Novembro/2003

Fontes recomendadas:
Gardner, Howard. Inteligências Múltiplas – A teoria na prática. Artmed, Porto Alegre.2000
_______, Arte, Mente e Cérebro – Uma abordagem cognitiva da criatividade. Artmed, Porto Alegre. 1999
Goleman, PhD., Daniel. Inteligência Emocional. Objetiva, Rio de Janeiro. 1995
Mecacci, Luciano. Conhecendo o Cérebro. Nobel, São Paulo. 1987
Zohar, Danah, e Ian Marshall. QS – Inteligência Espiritual. Editora Record, RJ e SP. 2000Sciences et Avenir. Setembro 2003
Scientific American. Ano 2, nº 17, outubro de 2003

Sites:
www.cerebromente.org.br
www.adorofisica.com.br/textos/textos_intelig.html
www.possibilidades.com.br
www.mapasmentais.com.br/modelos/educacao/mm_edu_inteligencias_multiplas.htm

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