
O Cego de Nascença
Era um espírito de certa elevação espiritual.
Não tinha mais débitos perante as leis divinas e ansiava crescer em direção ao Pai. A expiação não se fazia mais necessária, precisava, sim, de provar a si mesmo a firmeza de suas conquistas morais, a comprovação de que realmente conseguira iluminar-se com as virtudes adquiridas ao longo da sua caminhada.
Sentia necessidade de viver uma experiência na Terra, onde, pobre e cego de nascença, exercitaria a humildade e a resignação, com a oportunidade de, dia após dia, penetrar no mais recôndito do seu eu interior, recapitulando lições, revendo sentimentos, criando imagens próprias, buscando entender a grandeza de Deus…
Preparou-se então para reencarnar.
Viveu em Jerusalém, na época em que Jesus também vivia entre nós.
Sendo pobre e cego, passou a mendigar. Costumava ficar na porta do Templo de Jerusalém, e todos lhe conheciam e sabiam a sua história.
Aquele, era um dia especial.
Sendo já um homem, talvez na faixa dos trinta anos, aquietado nas suas perquirições, sentia uma integração com o todo universal, uma sensação de plenitude que o fazia sentir que tudo estava certo, nos seus devidos lugares e não havia mais anseios, desejo algum. Havia, sim, um cheiro de paz no ar…
Foi quando aconteceu.
Ouviu um leve burburinho e uns dedos delicados passando em seus olhos uma substância úmida e mole. Uma voz em forma de música celestial lhe diz para ir lavar-se na piscina de Siloé, ali próxima.
Ele vai, lava-se e… passa a ver!
E o que vê à sua frente? O Filho do Homem, o Cristo, o Salvador, a Luz do Mundo!
Ele que durante tantos anos buscava clarear o seu mundo íntimo, no momento em que consegue, recebe a graça divina de ver a luz do mundo trazida para ele por intermédio daquele que diz ser a própria Luz do Mundo!
Os seus olhos se iluminam ao encontrar o infinito no olhar daquele Mestre, que ele passa a considerar um Profeta, e a alegria espouca em seu íntimo, quais fogos de artifício em noite de festa. Sai correndo e mostra-se aos seus familiares, vizinhos, amigos e aos freqüentadores do Templo, liberto, convicto, seguro de si, confiante e pleno.
Não se incomodava com a incredulidade e frieza de coração dos que trabalhavam no Templo. Estava envolvido por outras vibrações, que só aqueles que passaram vitoriosos por longos testemunhos poderiam compreender…
Estava aberto ao novo e ao que elevasse o humano ao divino.
Encontra outra vez aquele que lhe dera luz aos olhos e ouve-o perguntar-lhe:
– “Crês no Filho do Homem?”
Ele responde com outra pergunta:
– “Quem é, Senhor, para que eu creia nele?”
Jesus lhe diz:
– “Já o viste, e é ele quem fala contigo.”
– “Creio, Senhor” e prostra-se diante dele.
Agora, estava consciente de quem lhe houvera restituído a visão, dando-lhe também luz interior.
Ele, que nada pedira, recebera tudo o que é mais sagrado: os “olhos de ver”.
Doravante, seus caminhos nunca mais seriam os mesmos…
Quando a modificação acontece no espírito, havendo um contato mais prolongado com o seu Cristo interno, as pessoas à sua volta não o reconhecem, não acreditam na sua transformação. Deixam de ver um mendigo de luz para assistirem a própria manifestação da luz, convidando indiretamente a que o acompanhem nesse roteiro plenificador.
Celeste Carneiro